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A Revolução de 1923

postado em 8 de jul de 2010 06:47 por Giovane Talian   [ atualizado em 30 de mai de 2012 12:41 por Giovane Pazuch ]

Qual ciclone impiedoso a revolução de 1923 varreu êste recanto do Rio Grande, semeando o terror, a ruína, a miséria e a fome. Mas, não conseguiu abater o ânimo varonil dos pioneiros: "Deus tem mais para dar que o diabo para tirar ". "Não há de ser nada!" "Vamos começar de nôvo!" E com êstes pensamentos reiniciou-se a marcha.

        Difícil coisa traçar um painel dos acontecimentos havidos e da situação criada pela convulsão social e política de 1923, quando a oposição, chefiada por Assis Brasil, desencadeou a luta contra o Govêrno do Dr. Borges de Medeiros. Ou porque a revolução federalista de 1893 fôsse ainda acontecimento recente, ou porque se julgassem-se herdeiros dos ideais dela, os revoluciorios tinham-se impropriamente como maragatos e assim eram apelidados. O que vamos relatar é tudo de narrativas que ouvi de homens testemunhas e vítimas das agruras e barbaridades daquêles negrosdias. Nem vou dar aos assuntos um nexo lógico e cronológico que exigiria paciente trabalho de pesquisa.

Parece certo, entretanto, por tudo quanto lí e ouvi, que os saques, roubos e banditismos não partiam em geral dos contingentes realmente revolucionários, comandados por chefes qualificados; nem das fôrças governistas empenhadas em dominar a revolução. As desordens derivavam de grupos isolados de aproveitadores, verdadeiras matilhas de ladrões e salteadores que usando da confusão, se apresentavam ora cá, ora lá, como maragatos ou como governistas, amedrontando os tímidos e desarmados colonos, extorquíndo-lhes o que tinham e levando tudo, sem dó e sem piedade.

Para despistar e para evitar constrangimentos os bandos daqui passavam a operar em Sarandí e outras zonas, e os de lá vinham para cá. E então era o "Deus nos acuda!" apresentavam-se vindos não se sabe de onde e perguntavam de que partido era o dono da casa. Os colonos mais corajosos e espertos respondiam dizendo-se companheiros e convidando a apear, a entrar para o chimarrão, para uma galinhada e uns dedos de boa prosa. Assim salvavam

a pele e os haveres. Mas, se, dando-se importância, dissessem ser do contra, a casa era invadida, roubada, saqueada. Outras vezes perguntavam se havia na vizinhança adversários. Não faltava

quem, por mêdo ou malvadeza, fizesse denúncias. Era o suficiente para que o bando para lá se derigisse escaramuçando os cavalos, dando descargas e repetindo o saque sem dar qualquer satisfação, quando não prendiam o dono, levando-o consigo pelos caminhos ou aplicando-lhe maus tratos. Depois desapareciam levando tudo o que podiam: dinheiro, armas, cavalos e burros, gados, suínos, galinhas, frutas da terra e comestíveis, roupas, vestimentos e tecidos, móveis de tôda a espécie, camas e colchões, espelhos e retratos, travessas, baldes, xícaras, pires e talheres, deixando à família apenas a vida e o teto. E se a mulher, chorando, suplicava que deixassem ao menos a vaca de leite para as crianças, muitas vêzes se condoíam e concordavam, mas, dias depois voltavam para levá-Ia. Em Iraí tais incursões devastadoras foram três; aqui menos. As lojas e hóteís ficavam literalmente despojados de tudo.

Não havia sossêgo nem de dia e nem de noite. Para salvar alguma coisa era preciso encaixotá-la, escon-la ou enterrá-la no mato. Os homens que ousassem discutir, opor-se ou defender o que era seu, horas depois deviam fugir apressadamente, conservando-se no mato semanas e meses. Por isso corria a anedota de que o General Taquara e o Coronel Cipó tinham muita gente ao seu mando. O mêdo converteu-se em terror quando se tornaram públicas certas atrocidades e assassinatos ocorridos com pessoas conhecidas.

A confusão era enorme, aumentada dia a dia pelos boatos que surgiam, engrossados desmesuradamente. Se matavam um, corria a nocia de que tinham sido massacrados cinquenta. Se fosse visto um piquête de vinte, dava-se por certo que vinham chegando duzentos. Se alguns homens palestrassem juntos, corria o boato de que andava por aí um piquête.

O trabalho e qualquer atividade produtiva ficaram paralizados, pois só as mulheres e crianças podiam conservar-se em casa.

Para proteger a colônia contra tão nefastas incursões Romano Motta, então agente consular da Itália, há muito residente no Município de Palmeira, bem relacionado com as autoridades públicas, vendo as graves vicissitudes da colônia, entrou em contato com ela e propôs a organização de uma Liga Colonial de Defesa, plano unânimente aceito e logo executado. Possuindo conhecimentos de estrategista militar, assumiu o comando auxiliado por Luiz Arruda; João Valentim e Agostinho Trezzi, de Osvaldo Cruz, em cuja casa se instalou o Quartel General. Reuniu-se tôda a espécie possível de armamentos e determinou-se que diàriamente piquêtes de colonos armados montassem guarda, devidamente escalados em

pontos estratégicos, à beira da estrada, nas divisas com Bôca da Picada. A alimentação corria por conta de cada um. Agindo sem provocações, mas, com decisão, às ordens daqueles chefes, e graçasà fama que logo se espalhou da presença de uma "poderosa" fôrça para defesa da colônia, a Liga conseguiu evitar novos saques e roubalheiras, afastando vigorosamente quaisquer grupos isolados que ousassem tentar a invasão. Foi um benefício de inestimável valor prestado à causa da colonização ao findar a revolução de 1923,que, se não foi tão crua como a de 1893, todavia, ofereceu pretexto para que matilhas de desordeiros praticassem tôda sorte de pilhagens, com incalculável prejuízo para os colonos.


BATTISTELLA, Vitor. Painéis do Passado: a história de Frederico Westphalen. Frederico Westphalen: Gráfica Marin, 1969. p. 221-223.


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